Primeiro dia
Já há algum tempo que não fazia uma autonomia, 15 dias
seguidos em Franca tinham me deixado sedente de serra, embora na semana
anterior tinha ido para a serra da Freita mas 3 fins-de-semana consecutivos sem
serra, deixaram me completamente a ressacar…

A Amarela essa já há algum tempo que reclamava por uma
autonomia, a Girafa de quem já sentia saudade da sua companhia bem discreta e o
Libelinha que já demonstrou a sua sede de montanha, aceitaram o desafio… Eu
estava eufórica, iriam ser 3 dias na serra, os dois primeiros dias as minhas
colegas acompanhavam-nos e depois regressavam a casa e eu continuava mais o
Libelinha que tem vindo a fazer parte de minha vida e de minhas aventuras também…
Encontramo-nos os 4 na Povoa de Lanhoso e lá fomos os 4 para
o Gerês. Chegamos a Fafião onde começava nossa caminhada e fui logo saudada
pelo Raul e depois o Sr. Manuel. Já no café do Fojo do Lobo a Dna. Maria nos
servia um bom café antes de por pés ao caminho… Disse-lhe mais ou menos por
onde ia andar, onde iriamos dormir, questão de os sossegar… Ficam sempre mais
tranquilos quando sabem quem anda e o por onde andam na serra… Não é curiosidade
mas sim um respeito enorme que aquela gente tem pela serra e saberem onde
procurar se a hora marcada o pessoal não aparecer…. Começamos o nosso trilho
pelo Terrão em direção a Ponte da Matança, ainda cruzamos com o Sr. Abel que
tinha ido limpar a sua fonte pois o cebolo estava a precisar de água… Palavra para
ali, palavra para acola e fomos andando, felizes e contentes… Eu estava
radiante estava com duas ótimas companhia com quem já partilhei muito boas
autonomias e com um homem fantástico que me preenche os olhos, a alma… o ser.


Chegando a ponte da matança paramos para apreciar o cenário que
era fantástico e comer alguma coisita… Ficamos muito tempo por ali a espera que
a chuva abrandasse, afinal tínhamos o dia todo para chegar ao lagarinho. Tinha
perfeitamente noção do tempo e da distância, não havia stresse mesmo nenhum.
Quando a chuva abrandou resolvemos continuar caminho, mas a chuva não nos deu tréguas
e de vez em quando la vinha S.Pedro com mais um “baldito” para abençoar a nossa
caminhada. Fomos subindo até Fonte Fria e depois Lagarinho… Ao passar na Fonte
Fria recordei alguns companheiros com quem já la tinha passado. Perdemos imenso
tempo a apreciar as paisagens, a tirar fotos, a explicar as minhas colegas por
onde elas tinham de regressar uma vez que elas iriam regressar sozinhas, a
abraçar a vida, a chuva e desta vez a sentir também o abraço físico da vida…
Quantas vezes nos meus sonhos, no meu delírio eu o senti… Desta vez era real,
ele estava ali e eu estava a sentir-me abraçada…
Chegando ao Lagarinho um sorriso enorme invadiu o meu rosto,
abracei o Libelinha como se fosse um “até que em fim, grande caminhada mas
chegamos".


Comecei pole primeiro ritual ajeitar a cabaninha que estava
limpa, queimar urze para afugentar a bicharada e uma pequena fogueira no local
destinado a isso dentro do abrigo de pastor… Enquanto eu tratava disso para
aquecer um pouco mais as minhas colegas o Libelinha encarregou-se de ir a lenha
para deixar para o pastor quando este lá chegasse, uma vez que estávamos a
gastar a lenha que lhe era destinada… Foi também buscar agua mais adiante para
preparar o jantar… Uma vez todos instalados e bem quentes toca a preparar o
jantar onde não faltou a massa, o queijo, o salpicão e claro o bom vinho maduro
para aquecer a alma…
Conversa para ali, risos para acola, e o Libelinha foi lá
fora buscar a sua mochila. E ouve-se de lá de forra “ esta a nevaaaaaaar” e ai
deparou-se um cenário belíssimo que minha maquina não conseguiu captar na
perfeição… Na noite escura, flocos de neve bem grandes sarapintavam a noite. O
libelinha estava radiante afinal S. Pedro lhe tinha prometido a tão desejada
neve… E eu desde o inicio do inverno que desejava um dia acordar no Gerês e rodeada de um
lençol de pura ceda branca…

Depois da euforia toda e dos sorrisos de satisfação
resolvemos nos deitar todos no abrigo uma vez que estaríamos mais aconchegados
e mais quentes. Para a Girafa seria a sua primeira vez a dormir em contacto com
o feno, já a Amarela já tinha tido essa experiencia que é fabulosa… Aconcheguei
o lume, coloquei um cavaco bem gordo para durar a noite inteira, metemo-nos nos
nossos sacos camas e adormecemos todos como anjos. Satisfeitos por estarmos
ali, com tão pouco e com tudo, sem conforto e extremamente confortáveis. Adormecemos
com o sorriso nos lábios de quem sentia a felicidade simples e singela do
simples estar muito bem…